Ninguém É Perfeit

Monday, July 17, 2006

Barrett

























Morreu Syd Barret,
trovador de mundos encantados,
após complicações advindas do diabetes,
aos 60 anos.

Syd Barrett morreu,
meu Deus, como pode?
Syd Barrett não se morre!

O poeta é uma idéia,
um conceito,
uma carta de tarô.

Uma vez em um tempo,
vive o poeta,
no coração das fadas e gnomos
e crianças brincando numa tarde de sol,
felizes para todo o sempre.

E assim
o velho louco sorri,
apesar da morte,
de seu trono distante
nas estrelas
finalmente
conquistadas.

Monday, July 10, 2006

Acuso!































- Mas isto não é poesia,

é só espirro, merda ou mijo,

excremento de energia

de quem perdeu o juízo.

- Isso não é espirro,

é alento.

- Isso não é merda,

é alimento.

- Isso não é mijo,

é ungüento.

- E se disser mais alguma coisa

eu te arrebento.

O Evangelho Aplicável a Mulheres Bonitas

Ama-me
Como a ti mesma.

Bala de Menta



Escrevo porque preciso.

Melhor seria do que roubar.

Thursday, July 06, 2006

Sufrágio Universal

























Podemos ter como certo
que esse "eu"
a quem nos chamamos
é na verdade
uma coletividade.

Não há continuidade
entre dois pensamentos,
saltos de sinapses
(no vão entre os pensamentos
reside o Mistério).

Temos somente a ilusão
de que somos sempre
um e o mesmo
unicamente porque
é sempre um "eu"
quem está no comando.

E todos os eus acham que são únicos.

Eu do trabalho
é uma armadura
que eu de casa
pensa que construiu.

Eu da família
nem sempre sabe
o que eu da rua viu.

Eu das ambições
vê bem acima
do que para eu submissão
é permitido.

Eu das tentações
põe a perigo
o que eu do dever
vai defender.

Eu pelado
Eu dormindo
Eu num dia de sol
Eu chovendo
Eu dentro de um disco voador

(isto para não falar
das incontáveis legiões
trancadas no porão).

Cada pessoa é uma nação
governada por um eu
em sucessões.

E esse era exatamente
o ponto a que eu queria chegar:
se cada noção de eu
é uma nação,
qual seria, então,
o melhor regime de governo?

Porque eu, particularmente,
acabo de me decidir
contra a democracia,
mesmo sendo eu a maioria.

Guardadas as devidas proporções
das próximas eleições
ou de qualquer outra que vier,
o que acontece
desde os atenienses
em toda votação
é o mesmo problema:

não vence nunca o melhor,
mas o que promete o que a gente quer.

Tuesday, July 04, 2006

A Meditação do Homem Raposa


Óleo sobre Eucatex, jun/2006

Monday, July 03, 2006

Mas não se deve temer os mortos?

























Estava eu tocando violão,
retomando após tantos anos
Jesus Alegria dos Homens
(a velha partitura amarelada,
com suas recordações,
por si só já encheria
meu poema).

Eu tocava de olhos fechados,
como toco quando me sinto bem
tocando bem.

Mas abri os olhos
e vi um lampejo
da figura de um homem,
de pé ao meu lado,
os braços cruzados,
antes que a imagem
se esvanecesse
num átimo
de segundo.

Seria a alma de um defunto?
Uma alucinação?
Alguma entidade sublunar?
Um mero efeito ótico?

Fosse o que fosse,
parecia estar apreciando a audição
e, por isso,
continuei tocando.

Com Asas














Hoje meu coração é andorinha
sozinha no inverno
que finalmente chegou.

Hoje meu coração é cigarra
trancada do lado de fora
com uma viola na mão
e uma cuia de esmolas.

Por isso não me resta opção,
meu coração,
senão voar
pro verão.

Por isso a minha decisão,
meu coração,
é pegar essa viola
e cantar.